No Taoismo, há três centros importantes chamados Tan Tien – o inferior, o médio e o superior, situados no baixo ventre, no coração e no cérebro, respectivamente. O Tan Tien inferior (em chinês) − ou Hara (em japonês) – está situado em torno de quatro dedos abaixo do umbigo e tem um lugar de destaque por ser considerado um reservatório de energia. Também diz respeito ao nosso centramento e enraizamento. Um dos principais ensinamentos da prática taoísta é que precisamos transferir a consciência da cabeça para a barriga. O umbigo é de onde toda a nutrição flui para nosso corpo enquanto estamos no útero, e ele continua a ser o centro energético do corpo ao longo da vida, assim como o nosso centro de gravidade. 

A pesquisa contemporânea tem confirmado que apenas os intestinos têm milhões de neurônios, mais do que a medula espinhal, e há fortes indicações de que o cérebro abdominal tenha uma capacidade independente de processar pensamentos e sentimentos. O cérebro é admirável na transformação da energia e projeção da energia no mundo, porém não é suficiente para gerar e armazenar energia por muito tempo. Quando fazemos isto, tendemos a ficar irritados; por este motivo, a energia deve ser levada até o abdômen, local ideal para ser armazenada.  

O conceito de grounding (enraizamento) da Bioenergética criada por Lowen, que também era praticante de Tai Chi, tem como base tal entendimento taoísta. O contato com a realidade, a autonomia e a segurança são funções do Hara. Os exercícios taoístas são uma escola de vida, ou seja, uma prática existencial que nos ajuda a fortalecer esse centro vital. A partir deste centramento, vem a serenidade e o fluir mais natural que os taoístas chamam de Wu Wei, a ação verdadeira, que nasce do estado de presença. É  fascinante quando vemos um mestre avançado nas artes marciais ou no Tai Chi, a adequação de suas ações à realidade dos gestos centrados no Hara, dando origem à espontaneidade na ação. A importância do Hara no amadurecimento psicológico da pessoa também é destacada pelos mestres taoístas. 

“O ser humano só consegue resistência e autodomínio quando as forças da parte superior do seu corpo e o ego não agem de forma isolada, mas são dirigidas e mantidas permanentemente na devida proporção a partir da base inferior. Só quem consegue concentrar a gravidade no centro do corpo físico, no Hara e preservá-la aí tem a chance de amadurecer…… Atualmente torna-se cada vez mais claro que por trás de neuroses, esconde-se um problema humano geral, o problema do amadurecimento. Amadurecimento significa a integração progressiva do homem à sua essência, permitindo-lhe participar do Ser.” Karlfried Graf Dürckheim

Para a visão oriental ancestral, “re-ligação” com a fonte não pode deixar de estar corporificada e enraizada, senão gera instabilidade na pessoa. Quando estamos integrados, a espiritualidade, assim como a sexualidade, estão integradas, uma vez que são funções do ser como um todo. O grounding corporal dá consistência e significado humano à espiritualidade. O autor Castermane comenta o que seu professor taoísta dizia aos alunos: “Se você sente tanto cansaço depois de oito horas de trabalho, é porque não está em hara. Ao confiar apenas nas forças do ego, você está separado das forças do ser.” De fato, percebi na minha vida que, antes de conhecer as práticas taoístas com o mestre Liu Pai Lim, minha energia era exaurida no trabalho ou em outras atividades. À medida que comecei a incorporar tais práticas senti uma mudança substancial. Claro que às vezes a vida nos pede maior esforço ou tensão, mas conhecer esse recurso e saber que posso voltar ao Hara ou Tan Tien fez uma grande diferença no meu centramento e nível de energia.  

A espiritualidade, dissociada da corporeidade e do enraizamento no corpo, transforma-se em uma abstração ou até mesmo numa fuga da realidade. Da mesma forma, para se abrir ou se entregar nos relacionamentos é preciso também ter um Hara e um grouding (enraizamento) bem desenvolvido para garantir sua autonomia e não cair em relacionamentos co-dependentes ou passar por um sofrimento prolongado após uma separação. Se não tivermos enraizado no Hara, a vida emocional se transforma em turbulência emocional. Um grande número de doenças psicossomáticas, distúrbios neurovegetativos e desconfortos físicos têm sua origem na ignorância ou recusa do centro vital. 

Nas nossas Jornadas de Tantra, uma das práticas pela qual muitos alunos sentem experiências transformadoras é baseada em “seguir a inteligência da barriga”, no Hara. Eles passam a perceber que muitas escolhas que fazem estão mais baseadas na cabeça e não representam a autenticidade do ser. Quando nos conectamos com o Hara e deixamos ele nos guiar, podemos nos surpreender por o quanto sentimos nosso fluir pela vida ser mais real. 

Respiração e consciência no HaraA respiração abdominal é ótima para amenizar estados de ansiedade e para preparar-se para a experiência sexual, visto que eleva o nível de energia. Você pode abraçar o baixo ventre, respirar profundamente pelo nariz indo até o abdômen, de modo que a barriga empurre suavemente suas mãos. No cotidiano, sempre que se lembrar, você pode trazer o olhar interior e a respiração para esse centro de energia no corpo, o que propicia maior enraizamento e centramento. 

Abraçar tal centro – com a mão direita sobre a esquerda – vai ajudar também a trazer maior consciência do Hara e ancoramento no momento presente. Com a prática, vem uma sensação de calor ou uma pulsação natural na região. Para os mestres taoístas, respirar nessa região abdominal e ter a consciência no Hara é a prática mais importante entre todas existentes, pelo fato da região em volta do umbigo ser o reservatório de energia desde a nossa origem fetal. 

Do livro “Tantra: o caminho da unidade” da autora Soraya Vidya

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